Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Tratado rompido



Antes tivesse abafado a chama que nos ardia silenciosamente.
Ela ainda não tinha marcado com fogo nossa pele.
Talvez por ser apenas promessa de alegria do tão sonhado encontro.
A curiosidade insiste em tirar o foco deixando fora do lugar o que antes era ordem.
Turbilhão nos roubou a paz contida de sentimentos inverbalizados.
Tal como mágica, palavras transformaram-se em toques, gestos, carícias.
A língua não travou o fluxo de pensamentos que antes pertenciam apenas
ao mundo abstrato das fantasias e, portanto, não oferecia risco.
Agora, o encanto fora perdido, as fronteiras foram invadidas e o tratado rompido.
Estamos diante de um impasse: como calar o segredo que a pele insiste em delatar?


Ilustração: Pablo Picasso

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Abstinência





Na boca, teu gosto insiste.
O coração denuncia em batimentos sem fim
o fogo do corpo que arde de fome do teu.
A lembrança do teu toque ficou na memória da pele, qual tatuagem.
Rastro vermelho, caminho do percorrer de tuas mãos e boca em meu corpo.
A íris denuncia, num brilho, o desejo quando você passa, ainda que pela lembrança.
A boca, agora seca, sofre de sede dos teus beijos.
Duelam, neste momento, corpo e mente, abstinência e vício, razão e emoção.
Quem vencerá?

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Exorcismo do caos





Escrever tem o dom de exorcizar fantasmas. Meu caos ainda não o coloquei na ordem escrita. Insiste em ficar no campo das abstrações, incomodando as ideias, atropelando o sono leve, teimando em me deixar desperta. Estou exigente demais ou com tempo de menos pra parar olhar pra ele e dizer: "Ei, diz o que quer agora ou me perturbe para sempre". Sim, porque ele fica lá, simplesmente permanece. Finjo não perceber. Vou me enganando, achando que não preciso escrever sobre o que está aqui dentro.

Vivo numa espécie de luto e de luta. Luto pela escrita. Não escrevo mais, não exorcizo mais fantasmas. Eles se acumulam. Luto para vencer esse round, ele ainda não acabou. Quem sabe minha luta tenha chegado ao fim? Escrevo, logo meu caos se faz ordem.

Quarta-feira, Julho 30, 2008

Vou por aí






Não me procure.

Perdida estou e sempre estarei.

Sempre que necessário for.

Já me perdi muitas vezes.

Por amor, desencanto, carência e solidão.

Saí por aí vagando em algum lugar de mim mesma

aonde tivesse referência de amor, ternura, carinho.

Fragmentos passados, vividos por outra que era eu,

mas não a que sou agora.

Nessas voltas encontrava a menina que ali deixei,

presa no passado.

Ela me trazia de volta, segurando minha mão.

Dizia pra mim; "solta os cabelos, sente o vento."

Meus cabelos, em desalinho, refletiam pensamentos

confusos, equivocados.

Tirei os sapatos. A grama úmida me fez sentir viva.

Corri com a menina no tapete verde-esperança.

Foi assim, brincando, que aprendi a não deixá-la fugir.

Ela tem muito a me ensinar.

Fica, menina Lena.

Sábado, Abril 26, 2008

Desconstruindo o homem perfeito





Mudei de cidade, casa, vida e casei novamente. Tudo isso, em pouco mais de um ano. Sim, só quem tem coragem de ser feliz se aventura a viver coisas novas.


Cresci ouvindo pra ter cuidado com isso, com aquilo, etc. Sou muito cheia de medos, de ressalvas, não gosto muito de me aventurar. Procuro certezas, mas se não me arrisco no universo do Talvez, como as terei? E assim vou vivendo.


Depois que me separei achei que não tinha mais lugar pra ninguém na minha vida, me enganei. Descobri que não tinha perdido a capacidade de amar, melhor ainda, descobri que a felicidade estava mais próxima do que eu pensava: aqui dentro, sempre. Devo essa capacidade a arte de saber perdoar. Se não fosse o perdão talvez não estivesse com a pessoa que estou agora e não seria tão feliz como sou hoje.


Tinha construído uma imagem do homem perfeito e nada podia destruir, ele destruiu. João desconstruiu a imagem do homem perfeito quando descobri sua traição logo no início do ano passado, quando ainda morávamos longe um do outro.


Doeu muito. Foi preciso acabar com a falsa imagem de perfeição e construir a relação possível entre adultos, baseada na honestidade, sinceridade, tolerância, paciência e perdão. Hoje tenho a real imagem do homem que está ao meu lado; com defeitos e qualidades, longe da perfeição utópica construída por uma mente delirante.



Reconhecer a humanidade, as falhas do outro, conhecer o que há de pior nele e, mesmo assim, aceitá-lo e amá-lo, é o começo da concretude do amor, o maduro.

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Sem fim





Nada te devo.

Nossa dívida foi quitada com a troca de erros.

Erros esses que custaram o abismo que nos separa.

Cujo o muro é a mágoa de mármore fria, dura que empedrou teu coração...

Cada história tem seu fim. A nossa acabou sem ponto, num intervalo eterno...




Terça-feira, Maio 22, 2007

Reflexões do absurdo


Queria diluir os momentos felizes em doses homeopáticas, assim garantiria a tão sonhada felicidade eterna... As vezes me pego pensando em absurdos como esse movida por um desejo irracional hedonista. Talvez esse seja o desejo natural do ser humano, talvez eu não seja tão estranha e diferente como penso.


Me assombra tudo que foge ao meu controle, como boa virginiana que sou. Adoraria fazer omelete sem quebrar os ovos, mas não posso. Logo percebo que os momentos difíceis vêm, mas passam. Tenho certeza. Sigo numa busca alucinante para que tudo se encaixe, milimetricamente, numa ergonomia descomunal.



Alguém conforta e diz: "vai passar, tenha calma". Calma, eu? Parece piada. A mulher mais ansiosa que conheço sou eu mesma, oras. Se tarda, perco a pouca paciência que tenho. Mas logo vem a senhora sensatez me avisar que "já deu". Cato os cacos de impaciência e monto o quebra-cabeça, nele está escrito A PACIÊNCIA É UMA VIRTUDE. Ué, quem disse que sou virtuosa??? Há quem diga que isso é um charme, vai saber...