Brindando com a morte
Tudo parecia calmamente estranho. O silêncio havia dominado o ambiente antes tão barulhento. Às vezes sentia-se como morta, uma morta que esqueceram de enterrar, e só por isso, a solidão a maltratava. "Morri e ninguém foi ao meu enterro. Meus amigos, onde estão?" questionava-se, incrédula.
Lis, uma mulher forte, bem-sucedida, mas muito dura. Durante sua vida não soube dar valor aos que realmente valiam a pena, achava que amor e amizade tinham preço.
Sua mansão foi palco de várias festas, todas com centenas de pessoas, mas a maioria, de gente que lhe detestava. Não dava valor aos seus funcionários, maltratava-os sempre que podia. Por isso mesmo atraía a ira de muitos. Um deles, Douglas, carinhosamente chamado de Doug.
Homem lindo, aparentemente honesto, amigo, confiável. Estava sempre nos momentos mais "oportunos" para livrar Lis de algum "mal". Incrível como ela, tão inteligente, nunca desconfiara da fidelidade do seu "braço direito", pelo contrário, Doug era o único que gozava de plena confiança de sua patroa.
Na festa de seus 35 anos, Lis havia organizado uma festa para comemorar com seus "amigos" seu aniversário. Doug, seu fiel escudeiro, havia se encarregado do cerimonial da festa que receberia cerca de 500 convidados. A única preocupação da aniversariante naquele dia foi de cuidar do seu visual.
Estava linda. Descia as escadas suavemente, as luzes se apagaram, apenas uma luz cenográfica focou na mulher. Elegante, usava um vestido de seda bege com detalhes de cristais no decote. Os cabelos longos estavam presos na altura da nuca, deixando alguns fios soltos. Quando chegou no último degrau Doug segurou sua mão e todos a aplaudiram.
Encantada com a festa, Lis tomou algumas taças de champanhe além da conta. "Hoje é o meu dia!", dizia ao amigo Paulo, que lhe pedia para parar de beber. "Como você é desagradável", falou ao amigo. "Ela sabe o que faz, você não precisa se meter", disse Doug, que pegou a mulher pelo braço e lhe deu uma taça de champanhe.
Depois da festa Lis sentia fortes dores no estômago, boca seca, falta de ar, até que... Caiu no chão, sentia seu espírito sair do corpo e passou a observar tudo que acontecia a sua volta. Viu quando Doug entrou no quarto, sorriu e não fez, sequer, menção de ajudá-la, de tentar saber o que havia acontecido. Ele sabia... "Um brinde à sua morte. Se achava tão esperta, né? Mas eu sou mais! Conquistei sua confiança porque queria seu lugar. Mereceu a morte!" Ao dizer isso, se afastou e foi embora.
Lis chorava ao ver a cena: Seu corpo imóvel, abandonado no chão. A pessoa em que mais confiava lhe traiu... Pensou nos amigos que afastou por intrigas daquele homem mesquinho e sórdido. Arrependida, suspirou e disse: "Se eu pudesse voltar atrás"...
O espaço e tempo entre o etéreo e o material não existe. O eterno é volátil, passa rápido, tudo é paradoxo. Segundos são eternos, duram uma vida, desde que o coração esteja naquele momento. Todas essas descobertas em fração de segundos...
Sentiu uma mão em seu ombro e logo em seguida ouviu uma voz carinhosa dizendo: "Lis, acho bom parar de beber, não acha?" "O que você sugere?" " Um passeio no jardim para se sentir melhor, tenho algo a lhe dizer", Paulo pretendia declarar seu amor pela amiga. Doug se aproximou dela, lhe ofereceu uma taça de champanhe e propôs um brinde. "Quero a sua taça" "O quê?" "Hoje é meu dia, você não vai me contrariar, não é?" Sem expressão, o homem entregou-lhe sua taça e juntos brindaram. O sorriso cínico na face pálida foi tudo que restou daquela existência medíocre. Era o sorriso da morte, morte dos sonhos, dos valores, onde o interesse e a hipocresia reinavam. Agora, na eternidade, amargava seu plano.

13 comentários:
Bom vê-la de volta aos textos tão talentosos. Mais um final surpreendente. Beijão.
Ô, Lena, que bom que voltou, mulher! Adoro seus textos.
Bom Carnaval.
Beijo.
É com muita alegria que estamos lendo mais um de seus brilhantes textos !
E também, o prazer de rever você em grande forma,esbanjando talento, beleza e simpatia !
ÔBA !!!
BeiJÔKAS !!!
Lena não esqueço vc, viu? As vezes só da tempo de ler.
Vc vai bem? O trabalho no Jornal?
Beijo,
Liliane
Olá!
Querida Lena, gostei muito de seu conto, por demais interessante.Uma narrativa envolvida com a sua sensibilidade feminina e com um desfecho que surpreende o leitor. Beijos, foi muito bom encontrar com a doce amiga.
Querida, que bom vê-lacom seus textos à la Agatha Christie :)
mas vamos nos animar, este ano é ano de mudanças radicais, esteja aberta para novos caminhos, é o que ouço o tempo todo dos astrólogos :)
Um abraço forte e saiba que gosto muito d evc.
laura
Ô Lena, faz tempo que a gente não se fala...
Quando é que vc vai colocar esses contos num livro?
Beijos
Lena, desculpe o sumiço. O maridão de férias , fiquei pouco tempo na blogosfera.
Como sempre suas histórias maravilhosamente bem narradas. Boa volta!!!
Bjos.
Lena : que texto marcante...adorei te ver voltar aos contos...vc é excelentes nisso!
beijos bem carinhosos nesta quarta-feira de cinzas.
Uau! Eu gostei, visse!!! Um bju, Lena.
Ordisi,
Um comentário desses vindo de alguém que escreve tão bem é um puta de um elogio,viu? Obrigada!
Ô Palpi linda,
Que bom que vc gostou, sei o qto é exigente e sem papas na língua! rss
JÔka,
Vc, como sempre, é pura simpatia. Bjo!
Liliane,
Também não te esqueço, mulher. Por aqui tudo bem, fora as pedras no caminho... Mas qdo as encontro dou um chute! rssss
Nossa, Wilton, já tinha esquecido como vc sabe ser tão querido nos comentários de meus textos.
Laura,
A recíproca é verdadeira, viu? Posso não estar sempre na tua caixa de comentários, mas com certeza, vc faz parte da minha lista de pessoas amigas. Bjo!
Zilá, minha querida, que bom te ver de novo!!! Sabe que vc faz falta, né? Não sei como poderia colocar meus contos num livro... rsss Será que alguém iria comprar?? hahahaha
Vera,
Se o Jaques estava contigo então tá explicado o sumiço... rsss
Não tem problema, eu faria a mesma coisa, amiga! Curta mesmo!!!
Lia,
Depois de um elogio desses ganhei minha quarta-feira de cinzas... rsss Bjo, mulher!
Adri,
Bom que gostou, visse!! rssss
Lena! que bom que está de volta e com um texto como esse. O pior é que tá cheio de Lis por aí...rs..beijos
Lena : passei pra te desejar um tranquilo fim de semana.
Bjinhos.
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