Ilusão
Acreditava no amor. Sempre foi assim. Quando menina sonhava que conheceria seu homem de uma forma excepcional. Ele a salvaria de algo que terrivelmente lhe incomodava. Ela, profundamente agradecida, retribuía-lhe amor incondicional, pois sabia que ali estava seu protetor. Os anos passaram e a moça tornou-se mulher, mas ainda alimentando o sonho cultivado na infância. O contexto à sua volta a sufocava; Muito desamor, muita gente disposta a ferir e ferir a alma. A aparente fortaleza era disfarce, ninguém era mais sensível e frágil que aquela mulher. Jurou que tão logo encontrasse seu homem não o deixaria escapar, faria tudo que tivesse ao seu alcance para jamais perdê-lo.
Conheceu Rodrigo em uma fila do banco. Esperava sua vez de ser atendida quando sentiu um homem tocar seu ombro e devolver um envelope. Acabara de ser roubada e nem tinha se dado conta. "Obrigada", foi tudo que conseguiu dizer. Daquele dia em diante eles não se largaram mais. Como havia prometido, entregou-se de corpo e alma àquele amor inventado. Foi feliz nos primeiros anos do casamento. Seu marido era trabalhador, carinhoso e acima de tudo: ao seu lado se sentia totalmente segura. Mas o tempo é o pior remédio para amores inventados, já que um dia descobre-se que eram castelos de areia. Rodrigo passou de protetor amável a espancador miserável, sem a mínima culpa de torturar sua mulher. Ana acreditava realmente que era só uma fase, logo a nuvem negra que pairava em seu casamento iria ser dissipada e o sol voltaria a brilhar novamente. Preparava sempre as melhores guloseimas para seu marido. Quando ele chegava do trabalho cheirando a álcool e perfume barato, já estava com a banheira pronta para recebê-lo. Quanto mais tentava agradá-lo, mais ele a rejeitava.
O sexo era uma forma brutal de manifestar seu repúdio por Ana, já que ele a dominava, não fazia questão do prazer dela, era sempre duro e seco. Suas entranhas ardiam de dor, mas dor de não conseguir se libertar da doença de tê-lo. Naquela noite havia preparado um jantar especial para comemorar 10 anos de casamento. Tudo estava do jeito que Rodrigo gostava.
O vestido branco contrastava com a pele morena de Ana. Os cabelos presos emprestaram-lhe um ar elegante. Seu marido chegou naquele dia trazendo um buquê de flores. Ficou encantada, mas quando viu que eram de sua mãe parabenizando-lhe pela data, seu rosto empalideceu. Virou-se, enxugou as lágrimas e serviu o jantar. Nenhuma palavra foi dita. Do amor inventado nem sequer um monólogo restara. Não sentia vontade de falar, e para quê? Não iria ouvi-la mesmo. Recebeu de presente de casamento um livro ilustrado com 350 páginas de receitas de pratos da culinária brasileira. Aquele presente fora a gota d'agua.
Depois de ter bebido além da conta, Rodrigo (como sempre) disse alguns desaforos para a esposa e lhe deu o costumeiro sexo ruim, aquele onde não há preliminares, o macho invade a seco, cortando todo o resto de esperança que pudesse existir. Satisfeito, virou-se e dormiu. Ainda desnuda, ajoelhou-se e, com as mãos no rosto, lavou a alma com as lágrimas que não rolavam na face morena, mas jorrava feito gozo no mais íntimo do seu ser. A porta calou o silêncio daquele inferno, de onde fugiu para nunca mais voltar.

14 comentários:
uma bela cronica gostei muito...e os anos acabam mesmo com tudo...ate com a ilusao de ter encontrado o salvador....parabnes...venho la da vera..
Lena,
Que história!!!
E quantos protagonistas representam esses papéis.
Alguns homens nem percebem q acabam enterrando a alma e a esperança de uma mulher que depositou a sua vida nesse sonho!
Um ótimo f.d.s.
bjos
Lena: esse rompimento...é quase um grito de libertação...um basta abafado pelo temor da solidão...
Adorei te ver escrevendo com muita energia.
Saudades e beijos bem carinhosos pra vc e JP neste fim de semana.
Olá!
Um texto primoroso, onde a presença da sensibilidade feminina está presente.Acho que você descreve e retrata a vida de um casal, extraindo a realidade sofrida da mulher em seu ambiente doméstico e onírico, de uma forma que conduz ao leitor, o prazer singular da leitura, merecedora, sempre de ser aplaudida, ovacionada como uma excelente escritora, e que em cada leitura sinto a necessidade de dizer: Parabéns!!! Beijos.
Lena, o calor aqui está tão grande que lembrei de Cuiabá, minha querida Cuiabá.
Liliane
E não matou o cara, Leninha? Só fechou a porta - e em silêncio? Eu já estava esganando o facínora, hehehe. Muito bom. Beijão.
boa estorinha, parabéns, continue firme.
vc já foi na denise hoje? link para o blog da flávia, fala de violência contra mulheres.
bj querida,
PS:não tenho vindo mto, falta tempo, mas sabe que lembro sempre de vc. venho qdo dá.
Lena, o pior é que muita mulher aceita esta condição por não admitirem que seus sonhos desmoronaram. A mulher sempre acha que pode mudar o homem, ledo engano. O homem só muda se ele quiser...
Amiga, se podia escrever algumas crônicas e mostrar para algum editor ou então escrever para jornal. Pense nisso, talento vc tem de sobra.
Vamos nos falar qualquer hora.
Bjos.
LENA,
muito querida amiga Lena e seu estranho mundo !
Seu carinho é muito importante pra mim, e venho aqui lhe retribuir a alegria que me dá ao me visitar la na Av.Copacabana.
Que a vida lhe seja boa e generosa e que você e sua família tenham sempre saúde e felicidade!
Um grande abraço do tamanho de Copacabana e um beijo enorme como o Brasil !
JÔKA P.
Amiga! passei pra deixar uns beijos! e saber de vc.!
É por conta de histórias como essa, que sempre digo: é preciso conhecer bem a pessoa antes de assumir alguma coisa... Não acredito em amor à primeira vista, e recomendo a todos que também não acreditem. Não acho que a vida fique "menos bela" por conta de não acreditar nisso.
Lena querida! isso é o que dá se entregar de corpo e alma! beijos
Lena,vc como sempre surpreende!! Bela história, e que faz parte do nosso cotidiano... Querer mudar o outro é complicado.
Um final de semana reluzente pra ti. Beijos
Cilene,
Obrigada pela visita. Que bom que gostou do meu texto. Bjo!
Paulo,
Infelizmente essa estória é a história de muitas mulheres neste país. Precisamos dá um basta!
Lia,
O rompimento não foi "quase" um grito de libertação, mas sim "o" grito. Não foi atoa que escrevi "a porta calou o silêncio", pq ao abandonar seu marido, rompeu com todas as ilusões, com tudo que acreditava da maneira mais radical possível. Esse sim é um bom exemplo do silêncio eloqüente ao qual tanto costumo falar por aqui. Tem certos casos, que o silêncio é o melhor discurso.
Wilton,
Sem palavras... rssss Bjo, seu moço!!
Liliane,
Aqui não tem feito tanto calor, pois tem chuvido todos os dias. A máxima tem ficado em torno dos 25°C.
Ordisi,
Imagina um homem machista como este ser abandonado pela mulher que julgava ser "inferior", quase como seu objeto pessoal, sua propriedade? Pois é, deve ter se sentido um lixo!!
Laura,
Tbm sinto sua falta. Bjo!
Vera,
Só vc mesmo... Tu é uma baita de uma amiga. Te adoro!!
Jôka,
Ô, meu amigo... Vc é simplesmente ADORÁVEL!! Seu carinho tbm é mto importante pra mim, viu??
Luci,
Então vc aderiu tbm a apagar os scraps do orkut? Bjo pra vc tbm!!
Rodrigo,
Minha teoria é de "paixão à primeira vista", amor se constroi junto. Precisa de tempo, não é como a paixão, que é avassaladora, vem rápido e tbm se consome, até não restar nada.
Lila,
Mas se não for de corpo e alma não tem graça, nem vale! rsss
Jane,
Há quanto tempo, hein, mulher? Saudade... Bjo!! rsss
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