O mistério de Gilda
Nada do que aquela mulher falava fazia sentido. Era sedutora, inteligente e simpática, porém um tanto enigmática. Parecia que sempre faltava dizer algo, era muito reticente. Estava em um café elegante lendo jornal enquanto esperava seu capuccino com creme quando a bela morena tropeçou em seu pé e caiu no seu colo... Sentiu um frio percorrer seu corpo ao lembrar de como ficou perturbado ao senti-la tão próximo. Ficou admirando seu decote, perdido, quase um imbecil...
- Tudo bem?
- Acho que essa fala é minha. Eu que deveria fazer essa pergunta a você.
Ela sorriu e completou:
- Bom, acho que se você conseguisse tirar os olhos do meu decote ficaria melhor, não?
- O quê? Eeu? Oh! Perdão, nem tinha me dado conta. Sou um idiota... Enrubesceu.
A morena sorriu e lhe disse:
- Desculpe a minha falta de tato. Em situações embaraçosas como esta costumo atacar para me defender...
Ao dizer isso, levantou de seu colo e sentou-se na cadeira ao lado, foi então que o homem lembrou de perguntar seu nome.
- Gilda.
Aquela voz ecoava ainda em seus pensamentos...
- Preciso ir...
- NÃO, por favor, fique ao menos para tomar um café comigo. Sinto muito...
- Qual é mesmo o seu nome?
- Otto.
Aquele dia foi o começo do fim... Otto sabia que aquela estranha iria lhe tirar a paz. Mas não ouviu sua intuição, já que isso é coisa de mulher, e mergulhou fundo no caso tórrido com Gilda. Ele não sabia onde ela morava, só se encontravam quando ela o procurava. Motivo principal do seu constante interesse e paixão. Otto era um exemplo da máxima que diz que os homens gostam das mulheres más. Não sabia o que a moça fazia, se era casada, se tinha filhos, com quem morava, porque vivia cercada de tanto mistério. Não podia cobrar muito dela, afinal não dizia para qualquer um sua verdadeira profissão.
Numa noite fria de abril, acordou com o bip do celular que avisava que tinha recebido mensagem. Meio sonolento olhou para ver o que estava escrito. Era Gilda dizendo que estava na porta de seu prédio esperando para que ele abrisse a porta para ela entrar.
- O que aconteceu?
- Não estou bem, só isso. Posso ficar aqui esta noite?
- Sim, claro. Não quer mesmo me contar o que aconteceu?
- Não.
Sem tirar os olhos de seu amante, tirou o sobretudo que estava molhado, começou a se despir e foi tomar um banho quente. Vestida em um roupão, deu um abraço em Otto como se fosse o último. Ele, sem entender nada, correspondeu e compactuou do silêncio. Era a primeira vez que ela parecia frágil, isso só aguçava ainda mais seu desejo por ela. Fizeram amor aquela noite sem trocar uma palavra sequer, não precisava. Os corpos, por si, falavam tudo. Otto acordou com a porta batendo. Sentou-se rápido na cama e encontrou um bilhete com apenas uma frase, curta e seca: "Obrigada por ter me acolhido". Mais uma vez Gilda havia entrado em sua vida e o abandonado sem deixar rastros.
Investigava o homicídio de um famoso empresário, Jorge Duran, que havia morrido em circunstâncias suspeitas. Foi encontrado em um motel amarrado, aparentemente gostava de práticas sado-masoquistas. O laudo pericial não encontrou nenhum fluido corporal, a cena do crime fora devidamente "limpa", antes que a polícia pudesse checar os detalhes daquela noite fatídica. Duran havia morrido por asfixia.
Cristina, a viúva, ficara em choque ao saber da morte do marido, muito mais pelas circunstâncias do fato do que pela perda que acabara de sofrer. Otto foi o policial designado para investigar a morte de Duran. Só deixava de pensar no trabalho quando Gilda aparecia...
Naquela noite haviam marcado para jantar em seu apartamento. Como de costume, falavam pouco, trocavam olhares cúmplices e encerravam a noite com sexo urgente. O tato era mais eloqüente que qualquer palavra pronunciada por eles. Adormeceram abraçados. Ouviu o sussurro de Gilda. Estava ao telefone marcando um encontro para logo que saísse dali. Ele fingiu dormir. Viu quando ela vestiu a roupa e saiu como se nada tivesse acontecido. Trocou a roupa rapidamente e a seguiu. "Hoje eu descubro o mistério dessa mulher", pensou.
A morena andava rápido na rua deserta. Parecia uma pintura. Sua silhueta perdia-se entre a neblina da noite fria. Entrou em uma casa cujo endereço era familiar. O policial foi até a janela e ficou estarrecido com cena que via: Gilda e Cristina, a viúva de Jorge Duran, trocavam beijos apaixonados. Bela cena, não fosse a decepção de se sentir usado e manipulado por duas mulheres diabólicas. Ouviu quando Cristina cobrou de Gilda o porquê de ainda não ter se "livrado do policial". A morena, triste, disse que logo cumpriria sua missão. Aquela confissão cortou-lhe o peito como uma navalha, deixando a carne exposta, sangrando... Chamou reforço e, mais uma vez, desvendou um caso sem solução.
No dia do crime, Duran estava no quarto de motel com sua esposa e Gilda, que conhecera há poucas horas fazendo sexo com sua esposa. Com o orgulho ferido, o homem obrigou as duas a se renderem aos seus caprichos de macho. Cansadas da situação, propuseram um jogo sado-maso. Ele topou na hora. Amordaçado, preso e cheio de luxúria ao ver as duas se amando na sua frente, não consegui chamar a atenção delas para dizer que estava sufocando com a mordaça. Ele sofria de uma rinite crônica, mantinha uso contínuo de vasocontritor. Foi vítima da cena que armou.
Ao ver Otto, Gilda disse:
- Não quis te magoar. Acabei me apaixonando por você.
- Agora você não pode mais me magoar. O que senti por você acabou quando fui enganado. Te enterro viva no meu desprezo. Descanse em paz, se puder.

15 comentários:
Puxa! Será que ele vai conseguir matá-la de seus pensamentos mesmo? Depois de quanto tempo? E ela, será que se sentirá culpada como ele deseja? Tcharam!!! Mistérios da paixão.
Beijo, querida.
Garotas boazinhas vão para o céu.
Garotas más vão pra qualquer lugar.
Nunca houve uma mulher como Gilda...
:D
O texto não é grande não.
Aliás, está super bem diagramado, apresentação nota 10, com letras lindas, claras, redondas e graúdas.
Fica bom de ler assim.
Abraço no seu irmão.
BeiJôkas pra você.
Tudo de bom !
:D
Lena, vc está se saindo uma escritora e tanto. mulher esta ai só podia ser Gilda mesmo.
Muito gostoso de ler.
mas que crueldade, hein? eu falando da maldade dos homens e vc coloca a maldade das mulheres hihihi vamos disputar aqui quem são piores, os meus personagens ou os teus.
Lena vou agora para o carnaval. Imagina que aqui, 01 semana depois ainda tem? Terra de quem não tem mesmo o que fazer.Mas é o bloco CAMBURÃO. De quem estava trabalhando no carnaval. Vou lá.
Liliane
Lena vou agora para o carnaval. Imagina que aqui, 01 semana depois ainda tem? Terra de quem não tem mesmo o que fazer.Mas é o bloco CAMBURÃO. De quem estava trabalhando no carnaval. Vou lá.
Liliane
Depois de ler essa história, cheguei a sentir vontade de largar a faculdade de História e me tornar investigador! hahaha
Coincidência (ou não), "Otto" era meu apelido no colégio...
Êta Leninha, quantas surpresas!
Muito criativo.
Beijão.
Olá!
Querida Lena, um texto muito bom,uma narrativa envolvente e com a dose sob medida de mistério.Você sempre se revela como uma escritora de qualidade, parabéns.Acho que desponta uma escritora, uma boa escritora, de literatura policial.Beijos e muito obrigado pela visita.
Lena: concordo com nossa amiga Laura...você está se superando cada vez mais no ofício de escrever...o que só faz bem a nós todos que torcemos por vc!
Beijos bem carinhosos e uma semana bem tranquila.
Bom dia!
Lena querida, passei para felicitar você, pelo dia de hoje. Beijos.
Lena amiga, como sempre vc escrevendo uma história envolvente e cheia de mistérios. Adorei!!!
Bjos.
nooossa! contundente as palavras finais!
bj pra ti, amiga, hoje em especial!
Lena: passei pra te desejar uma boa noite de Domingo.
Beijos diretamente do meu Cotidiano.
Gente,
Obrigada pelos comentários e desculpe não responder a cada um como sempre faço. É que hj tô meio na correria. Bjo a todos!!
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